domingo, 12 de outubro de 2008

É tudo que eu posso oferecer ( é pouco...)

Durante séculos homens e mulheres lutaram por liberdade.Queriam o direito ao conhecimento e em pleno século XXI onde temos o mundo ao nosso alcance,parece que os dias de luta foram friamente esquecidos...


Você entra em um shopping center e não vê pessoas ,o que se passa diante de seus olhos são roupas,marcas e etiquetas ( que oh céus,alguns pensam que simbolizam poder!).A impressão que me dá é que as pessoas fazem isso para camuflar a falta de conteúdo.É como se o corpo deles fossem suprir a necessidade de pensamentos... mas não supre!Não é ruim ver um "sex simbol",não é ruim ver um "Axl Rose" ou uma "Juliana Paes" mas é extremamente constrangedor quando os "portadores da beleza" não conseguem manter um diálogo.


A beleza anda tão comercial que todas as mulherese homens parecem ter saido da mesma fábrica.Mulheres magras,com seus cabelos lisos a custo de escovinhas progressivas (mas são regresso...) com suas franjas e quase todas no manequin 38,homens malhados a custa de infinita horas em academias (ou com anabolizantes).Homens e mulheres trabalhando seus corposcomo se isso fosse a única coisa a fazer,homens e mulheres trabalhando seus corpos e nos lançando um olhar " isso é tudo que eu tenho a oferecer" . Homens e mulheres enlouquecendo aos poucos por descobrirem que o corpo ainda é pouco!O corpo ainda é pouco,muito pouco.
Os anos se passam e o que era pouco já quese não existe.Ninguém usa o corpo como chamativo aos 60 anos; e o que fazer?Os "hérois do século XXI" preucupam-se tanto com o corpo que esquecem da " alma" e assim todos os lugares ficam cheios de pessoas vazias.Eles sofrem,eu sofro,sofremos todos!
No mundo pós moderno não há espaço para o ser,tudo soa como um grande desfile de moda .As pessoas procuram na beleza um modo de serem amadas,admiradas,contempladas mas no fundo elas querem mais( eu ao menos queria que elas desejassem mais).Não precisamos ser apenas objetos sexuais.Suas bocas não precisam serem apenas para lembrar cenas eróticas,suas bocas também deveriam serem olhadas com delicadeza pois dali saem tambem idéias...o mundo pós moderno acaso esqueceu todos os anos de lutas,revoluções?Tudo isso me deixa com o semblante triste.Que horrível a situação de não conseguir manter uma conversa com um semelhante seu,que deprimente ser visto apenas como um pedaço de carne...
É preciso mudar,caso contrário daqui a uns anos perderemos a capacidade que nos difere dos outros animais.Pode ser que daqui a uns anos a gente não pense mais.Mas o vazio continuará e o eco da frase :
"E o corpo ainda é pouco"


By Ariadne [no verso da prova de biologia]

Um comentário:

MOURA, de Isaque. disse...

Receita de mulher

As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República [Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Qu tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da [aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que tudo seja belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Eluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como ao âmbar de uma tarde. Ah, deixai-e dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos, então
Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) e também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é, porém, o problema das saboneteiras: uma mulher sem [saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de 5 velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de [coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima [penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!)
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca [inferior
A 37° centígrados podendo eventualmente provocar queimaduras
Do 1° grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro da paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que, se se fechar os olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer [beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ele não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.

(Vinícius de Moraes).

- Esse poema foi mal interpretado durante anos. E assim continuará sendo...

Gostei do texto, Ariadne. Quando li "verso da prova de Biologia", imaginei alguma piadinha sobre Linné e calcinhas baratas. Agradeço-a por me satisfazer com essa leitura.

(E eu não estou sendo paradoxal).